Minha morte pelas mil apunhaladas

 

A palavra morte pode vir a ser multifacetada. Pode ter uma infinidade de sentidos e representar outra infinidade de agregos pessoais. 

A onze anos, assassinaram um filho meu, logo, 10 meses depois, assassinaram minha filha. Assinaram a mim, pouco a pouco dentro dela por meio da alienação, e a assassinaram pouco a pouco dentro de mim, a ponto dessa interpretação ser a única maneira que encontrei para tentar seguir minimamente em frente.

Assassinaram o meu direito de ser pai. O direito ao convívio, e na minha filha o direito de ter um pai e também ao convívio. Assassinos deliberados cooperando em prol de um único objetivo. Assassinar o moral individual, sem nenhuma consideração ou respeito, para que a verdade, a única coisa que deveria ser sagrada nessa história, janais perpetuasse. 

O sistema cooperou com cada um dos milhares de assassinatos cotidianos que se seguiram até a minha morte. Toda a família fez sua parte com muito empenho e deliberação.

 Em fim, todos lutam para manter enterrado o segredo de suas vidas, a coparticipação do assassinato do Gustavo. Pois todos sabem a verdade que tanto continuam a assassinar para esconder. E nessa morte vivem suas vidas sem cojitar voltarem atrás. 


Assassinaram relações, respeito, respeito próprio, respeito alheio. Assassinaram Ética e moral em todas as formas imagináveis de os descrever. 

Assassinaram para preservar imagens criadas para respaldar acusações que nunca sacramentaram. 

Não. Eu nunca fui o monstro em que me transformaram, mas todos escolheram cooperar em me transformar em tal, e todos cooperaram na morte até a morte . 

Hoje, já Não sou mais ninguém, senão uma mera sombra que representa uma mera história de crimes e mentiras. Já não há mais vítimas, pois, ou estão mortas, ou apenas fingem seu papel.

Não há mais lembranças que valham o sofrimento de portá-las.

 Não há mais vida, não há mais posses, nem ambições, nem vontades, nem valores e nem mais cadáveres.

 Pois todos cooperaram e assassinaram,  bem como aquele filho e aquela filha naquela época naquele balde d'água, e dia após dias com as gotas mortais do veneno da alienação. 

Não procure quem não existe  mais para procurar, pois a quem procurariam por qualquer motivo, já não existe. Foi assassinado.

 Ainda há quem perca seu tempo buscando o que não existe mais, quem não existe mais, e que portanto, não pode ser buscado, resgatado, encontrado 


Não sobrou traços. Não sobrou identidade.  Não sobrou dor nem ódio ou patrimônio. O que há, há de se dissolver em dividas de impostos e leilões futuros. Nao restou nada a interesseiros funcionais. Tudo foi alienado e alinhavado a se dissolver, de modo que a vida sempre acha o jeito, que minimamente compensa até aquilo que jamais se cojitou poder ser compensado. 

Não, eu não existo mais.

 O que restou daquele velho maltrapilho que escolheu ser indigente e viver nas ruas, já não existe. 


Passei a ser uma mera história de muitas faces, contadas por muitas bocas,com diferentes versões. 

Não adianta procurarem o que não existe mais, ou quem não existe mais. 

Há batalhas que apenas reconhecemos não valer mais apena, não valem mais a paz a qual consumiram até a última fração, e desistimos até da própria vida em prol de resquícios dessa paz que jamais encontrei.

 O que sobrou de mim, ficou um pouco em cada momento, em cada época, e cada pessoa. 

Em alguns sobrou memoria, em outros restou o ódio, sentimento único capaz de ser sentido por alguns.

Cometi o terrível crime de ter existido, de ter tentado ser alguém descente num mundo de víboras e  crocodilos. 

Errei ao me esforçar em prol de coerência. 

Fui assassinado por ser correto. Isso era demais para os que diziam que eu não o era. 


Há pates minhas que a água levou desde àquele dia, pois lá, na água, eu até encontrava porções de afago.

 Era lá que eu conseguia me conectar com a unica pessoa que hoje permanece intocavelmente inocente.


 Foi pelas mãos da própria mãe que fora assassinado, na água, e a água é seu portal de conecção. A mesma água que aos poucos também levou meu corpo e minha alma para jamais serem reencontrados. 


Partes minhas permanecerão na sombra de um velho cajueiro que não estrada,  sem me pedir nada em troca, cedeu sua sombra e seu fruto quando estive exausto, fraco e faminto. 

Há o velho rio de águas tranquilas que nunca deixam de correr, lá, eu lavei o sangue daa feridas das profundezas da minha alma,  onde só a água doce pode fazer sem arder ainda mais. 

No velho rio, me refresquei, e disfarcei as lágrimas de dias e noites incontáveis. 

Tentei apenas seguir, curar tantas feridas, amenizar tanta dor, mas, mal sabia eu que há feridas que jamais cicatrizam, e a dores que jamais deixam de doer. 

11 anos depois e a vida me ensinando que ela não nos deve nada. 

Não tem nenhuma obrigação. E que não há nada que devemos esperar dela, senão àquilo que nós mesmos buscarmos.

 Buscar? Como? E em tanta desvantagem? Com tantas feridas abertas e a dor ardendo como vinagre sobre a carne esfolada. 

Mas no fim, nem são as feridas e as dores da carne, com essas a gente se acostuma a viver. 

Há, a dor na alma, ocasionada por uma sucessão de fatos, acontecimentos, que o sistema em nada se importou em zelar pelo justo e coerente. 

Ninguém resiste ser tão forte por tanto tempo. 

Sim, busquei ajuda nos mesmos braços do mesmo sistema que em nada se importa com verdade, ética ou dor alheia. Sistema esse que por obrigação conquistada por direito, onde mais precisei, também me deu as costas. 

O sistema também Me assassinou. 

Quando me deram as costas, me excluíram,  agiram como desumanidade e desrespeito a todo meu esforço em busca de nada mais que aquilo que eles de se dispuseram a fazer. 

Me deram as costas, com as minhas em carne viva, ardente na febre do não entendimento de tanta incoerência.

Som. Ei estive doente, e agora com mais lâmina enterradas nas minhas costas, bem onde não alcanço, e não as consigo arrancar, e as lavei comigo até meus últimos paços, até onde cai de joelhos, e entendi que ali era até onde eu poderia ir. 

Eles me assassinaram. E não há sequer um cadáver para buscar. Pois em meio ao deserto, último lugar que eu atravessava, nem os ossos sobram perante o sol e os tantos intempers. 

Partes minhas foram devoradas pela voracidade dos que me odiaram em sequer saber por que. Outras, ainda estão tentando serem digeridas por quem no fim, não teve vitória lucrativa perante tanta guerra onde os valores se inverteram e  onde só eu perdi.


Minha história se incerra. Meu livro já é fechado. 

E o que sobrou, hoje, uma mera sombra que vaga nas lembranças dos que me amaram e me odiaram. 

Minha hora chegou bem antes. 

Mas a deles há de chagar, e nesse caminho, perante a imparcialidade da vida que a ninguém nada deve, o acaso sutilmente inflinge a realidade ao cotidiano. 

E nessa realidade cotidiana que em pequenas doses os acertos de conta surgem.

 Não pela mão vingativa de alguém que busca vingança, mas pela própria sucessão de outros fatos que lá no final ocasionam algum equilíbrio. 

Fui assassinado, calado, abandonado por quase todos.

 Me foi dada as costas por quem menos esperei. 

E me foi oferecida a ajuda por quem sequer me conhecia daqueles tempos até outros tempos.

Já não resta nada, já não há mais trilhas e vestígios a seguir. 

Estou permanentemente assassinado, deixado aos braços da inexistência de onde jamais voltarei a sair. 

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